CUT – É HORA DE DISCUTIR NA BASE
Antes mesmo de o Presidente Lula assumir o poder, a CUT já vinha colocando em cheque sua independência ao estabelecer relações econômicas com o governo através da FAT – Fundo de Apoio ao Trabalhador. Este chega via governo federal e, já em 1999, 40% da verba da CUT vinha deste fundo. Parte desse recurso é utilizado em cursos de requalificação profissional, pois a CUT, juntamente com o governo divulga a ideologia burguesa de que o desemprego é causado pelo próprio trabalhador “que não estuda”. Há também liberação de verbas de bancos oficiais para projetos dirigidos pela CUT. Com a ascensão do Lula, esse processo se intensificou através de nomeações de 45 líderes sindicais para altos postos governamentais. O Senhor Jair Meneguelli, ex-presidente da CUT, ocupa hoje o cargo de presidente do Conselho do Serviço Social da Industria – SESI, com um salário de R$ 19,4 mil. João Vaccari, Relações Internacionais da CUT Nacional, participa do Conselho Administrativo de Itaipu e recebe um jetom de R$ 7,8 mil para participar de uma reunião por mês. Com a Reforma da Previdência, as centrais, inclusive a CUT, foram autorizadas a formarem seus próprios fundos de pensões, o que talvez justifique a ausência dessas entidades quando das lutas pelos trabalhadores contra essa reforma. Mas o pior disso foi a nomeação de sindicalistas para administrar Fundos de Pensão estatais (Previ, Petros e Funcef) que investem milhões em diversas empresas que têm direito de nomear seus administradores, configurando uma associação de sindicalistas com empresários para explorar trabalhadores em nome do lucro capitalista. Não bastasse isso, a CUT aliou-se a banqueiros, assinando um acordo de empréstimo aos sindicalizados com desconto em folha de pagamento, entregando ao sistema financeiro o salário do trabalhador.
O presidente da CUT, Luiz Marinho, intermediou um empréstimo de 700 milhões, concedido pelo governo, através do BNDS à Embraer. Esta tem a Previ como uma de suas acionistas e é presidida pelo ex-sindicalista Sérgio Rosa. Passado um tempo, a Embraer fez uma doação financeira para o 1º de maio deste ano da CUT.
Há um tempo atrás, não muito distante, a CUT defendia o ensino público, mas hoje, o Senhor Luiz Marinho e o Vicentinho, famosos sindicalistas, fizeram propaganda para uma grande universidade privada de São Paulo. Não é coerente alguém que defende ensino público fazer propaganda para escolas privadas.
Com a Reforma Sindical (ver FORUM NACIONAL DO TRABALHO – Reforma Sindical – Relatório da Comissão de Sistematização, Brasília, março de 2004) as direções da CUT e Força Sindical poderão obter o poder de negociação e destruir a oposição dos sindicatos de base. Isso porque todas as negociações passarão a ser feitas através de um Conselho Nacional de Relações do Trabalho. Este Conselho será tripartite e paritário. Será compostos por cinco trabalhadores indicados pelas Centrais Sindicais, cinco representantes dos empregadores indicados pelas Confederações e cinco representantes indicados pelo Ministério de Trabalho, com mandato de seis anos e a cada três se renova um terço da bancada dos trabalhadores e dos empregados. Vocês conseguem imaginar o nosso dissídio ser discutido por este Conselho? Supondo que os cincos representantes dos trabalhadores brigassem pelo aumento do salário do funcionalismo público, quem garante que os cinco representantes do setor empresarial e os cinco do governo irão votar a favor do funcionário? Como pessoas tão distantes da realidade da base pode discutir os problemas dos trabalhadores? Pela composição, de saída seremos minoria nesse Conselho. Na realidade as centrais poderão negociar e contratar em nome dos trabalhadores, sem a aprovação das assembléias dos sindicatos de base. Somente sindicatos com mais de 20% de filiados em relação ao número total de funcionários de uma determinada entidade poderão existir, e se a base não conseguir atingir esse número, as Centrais poderão montar um sindicato com uma diretoria escolhida por ela em qualquer setor do país, com qualquer número de filiados. É essa a Reforma Sindical que a CUT e a Força estão construindo junto ao governo e aos empresários.
Mas nada fere mais do que o silêncio vergonhoso frente a um salário mínimo de R$260,00 (duzentos e sessenta reais) e a não organização dos funcionários quando de suas lutas por aumentos salariais e contra a política econômica do governo.
Diante desse quadro fica difícil não tentar romper com essa entidade. Fica impossível dizer que a CUT representa os interesses da classe trabalhadora e, em maior ou menor grau, essa necessidade de ruptura com essas centrais que ai estão, é um sentimento que tomou conta de uma parcela considerável da classe trabalhadora brasileira. O exemplo mais vivo disso foi o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, que em sua Assembléia, com maioria esmagadora, se desfiliou da CUT.
A CUT se defende dizendo que romper é o mesmo que dividir a classe trabalhadora, pois existem três mil sindicatos e a maioria desses não chegou a essa conclusão. E, se acionada ela se levantará em defesa das suas tradicionais bandeiras. Não foi o que vimos na Reforma Previdenciária. Se ela não levantou bandeira apoiando o governo, também não tomou o partido dos trabalhadores que tanto perderam com essa reforma.
Historicamente, a CUT, da sua criação, também enfrentou a acusação de divisionista e setores da esquerda, sob pretexto de defender a unidade dos trabalhadores, foram contra a sua formação. Hoje essa pelegada faz parte da CUT.
Se os trabalhadores não tivessem se colocado contra as confederações e federações pelegas da época, hoje a CUT não existiria. E mesmo com a participação de apenas 430 sindicados a criação da CUT se efetivou.
Esse medo de dividir a classe trabalhadora não pode ser a base para não se criar uma nova Central Trabalhadora que defenda realmente os interesses do trabalhador. Fica ainda a pergunta: que unidade a CUT defende? Uma unidade a custa de paralisar a luta do trabalhador? A União dos trabalhadores é fundamental, mas ela só é válida para defender os seus direitos e isto, através da CUT ficou inviável, pelo simples fato de que hoje essa entidade apóia o governo e se recusa a enfrenta-lo. Um exemplo disso foi o boicote ao ato convocado pela Conlutas no dia 16 de junho. Mais do que uma entidade, quem estava lá gritando por direitos, eram os trabalhadores e a CUT não se fez presente no ato, defendendo os anseios da classe trabalhadora. Fica aqui registrado a apunhalada que ela deu nas costas dos trabalhadores dos correios. A Articulação da CUT defendeu um acordo rebaixado para preservar a política econômica do Lula e foi derrotada pela maioria na Assembléia Geral. Entretanto, para derrotar a greve nacionalista, em acordo com o governo e a direção dos correios deu uma entrevista à imprensa dizendo que a greve tinha acabado e tal comunicado ao ser difundido pelas emissoras de TV, desmontou a paralisação.
Precisamos nos questionar sobre a melhor maneira de lutar contra as reformas e o plano econômico do governo que tem como conseqüência o arrocho salarial e o desemprego. Pela postura que a CUT assumiu, parece difícil uma vitória através dela. É hora de mostrarmos nosso repúdio à CUT. Muitos sindicatos já pararam de contribuir e outros desfiliaram-se. Uma reorganização sindical e a criação de uma nova direção nacional se fazem necessária, pois precisamos impedir essas reformas que só vêm beneficiar a burguesia desse país.
MARIA REGINA BRAUNA BATISTA
Coordenadora de Comunicação e Imprensa do SINTUNESP