"Defendo
a cota
para
negros
para que
o
Brasil,
que é
multirracial,
tenha a
dignidade
de ter
os
negros
participando
de sua
elite".
A afirmação
é do
senador
Cristovam
Buarque
(PDT-DF),
em
entrevista
à Agência
Senado
sobre a
proposta
de criação
de cotas
para
negros e
para
alunos
de
escolas
públicas
nas
universidades
federais
e
estaduais.
-
Nós,
brasileiros,
precisamos
pagar
uma dívida
com a raça
negra do
Brasil.
Faz
quase
120 anos
da abolição
da
escravatura
e até
hoje a
elite
intelectual,
a elite
econômica,
a elite
de todo
tipo no
Brasil
é
branca.
Dá a
impressão
de que o
Brasil
é um país
europeu
ainda
escravocrata.
Cristovam
tem
credenciais
acadêmicas
e políticas
para
defender
a
proposta.
Doutor
em
Economia
pela
Sorbonne,
em
Paris,
Cristovam
foi
reitor
da
Universidade
de Brasília
(UnB)
por
quatro
anos e
trabalhou
no Banco
Interamericano
de
Desenvolvimento
(BID),
em
Washington,
de 1973
a 1979.
Eleito
governador
do
Distrito
Federal
em 1994,
Cristovam
conquistou
o
mandato
de
senador
em 2002
com 600
mil
votos, a
maior
votação
da história
de Brasília.
E, antes
de
assumir
o
mandato
de
senador,
foi, por
um ano e
um mês,
o
primeiro
ministro
da Educação
do
governo
Lula.
Como
governador,
Cristovam
implantou
em 1996,
junto
com o
reitor
João Cláudio
Todorov,
o
Programa
de
Avaliação
Seriada
(PAS).
É um
novo
sistema
de seleção
de
alunos
com
exames
durante
os três
anos do
Ensino Médio,
em lugar
da prova
única
do
vestibular.
Dessa
forma,
50% das
vagas na
UnB são
reservadas
aos
alunos
que
tiverem
melhor
desempenho
no
Ensino Médio.
Hoje, já
existem
jovens
formados
por esse
sistema.
O
programa
estimulou
a
qualidade
das
escolas
públicas
e
privadas,
na
avaliação
de
Cristovam.
Embora a
maioria
dos
alunos
selecionados
até
agora
tenha
vindo
das
escolas
privadas,
os
alunos
da
escola pública
passaram
a
vislumbrar
uma
chance
de
entrar
na
universidade.
A idéia,
do
professor
Lauro
Mohry,
nasceu
quando
Cristovam
era o
reitor e
Mohry,
responsável
pelo
vestibular
da UnB,
mas não
contou
com o
apoio do
então
governador
José
Aparecido.Como
ministro
da Educação,
Cristovam
começou
quase
todos os
programas
que o
Ministério
desenvolve
hoje. O
Fundeb
(Fundo
de
Manutenção
e
Desenvolvimento
da Educação
Básica
e de
Valorização
dos
Profissionais
da Educação)
foi um
dos
programas
criados
na sua
gestão.
O Prouni
(Programa
Universidade
para
Todos)
começou
na gestão
Cristovam
com o
nome de
Programa
de
Assistência
ao
Estudante
(PAE).
Com uma
diferença:
o aluno
que
recebesse
a
mensalidade
teria
que ser
alfabetizador
de
adultos.
"Não
acredito
em
lanche
grátis
- quem
recebe
do
governo
tem que
dar algo
em
troca",
justifica
o
senador.
Cristovam
Buarque
criou a
organização
não-governamental
Missão
Criança
para
promover
o
programa
Bolsa
Escola,
que mantém
mais de
mil famílias
com
bolsa
financiada
com
recursos
privados.
Ele
afirma
que a
criação
do Bolsa
Escola
no seu
governo
universalizou
o ensino
fundamental
no
Distrito
Federal.
Na
entrevista,
Cristovam
expõe
algumas
das suas
idéias
em
defesa
das
cotas
para
negros e
para
alunos
de
escolas
públicas
nas
universidades
estatais.
P
- Muita
gente
pensa
que a
cota é
para
entrar
quem não
passa no
vestibular.
Como é
isso?
R
-
Primeiro,
vamos à
minha
proposta
para que
se criem
vagas
para as
pessoas
de raça
negra,
índios
e
descendentes.
Com a
minha
proposta,
não se
tira
vagas de
brancos
para
negros,
preenchem-se
as vagas
todas
com os
que
passam
no
vestibular
na ordem
de
classificação;
depois,
criam-se
vagas
para os
jovens
negros
que
passarem
no
vestibular
e não
estiverem
nessa
lista de
classificação.Aí,
pode-se
dizer,
até um
limite
de dez
por
cento
das
vagas.
No meu
tempo,
essas
pessoas
que
passavam
no
vestibular
e não
obtinham
vagas
eram
chamados
"excedentes".
P
- Há
pessoas
que
dizem
que as
cotas
para
negros vão
estimular
ressentimentos
raciais.
Contra
essa
opinião
e em
defesa
das
cotas,
outros
dizem
que as
cotas vão
apenas
explicitar
o
racismo
de
muitos
brasileiros.
Como o
senhor
responde
a essa
crítica?
R
- Nós,
brasileiros,
precisamos
pagar
uma dívida
com a raça
negra do
Brasil.
Faz
quase
120 anos
da abolição
da
escravatura
e até
hoje a
elite
intelectual,
a elite
econômica,
a elite
de todo
tipo no
Brasil
é
branca.
Dá a
impressão
de que o
Brasil
é um país
europeu
ainda
escravocrata.
Além do
mais, é
um
equivoco
pensar
que a
cota
para
negros
beneficia
apenas o
negro.Essa
cota vai
beneficiar
o
Brasil.
Por
isso, os
brasileiros
deveriam
ter
vergonha
de não
ter
negro na
elite.
Defendo
a cota
para
negros
para que
o
Brasil,
que é
multirracial,
tenha a
dignidade
de ter
os
negros
participando
de sua
elite.
P
- Nos
Estados
Unidos,
onde o
senhor
morou de
1973 a
1979
como
funcionário
do BID,
os
conflitos
raciais
são
mais
explícitos,
as cotas
foram
criadas
no início
da década
de 70.
Como tem
sido o
resultado
da
implantação
das
cotas lá?
R
- Apesar
das críticas
que
existem
ainda
persistem.
Os
Estados
Unidos
conseguiram
criar
uma
classe média
negra em
parte
graças
às
cotas. Lá
as cotas
já
existem
há de
25 anos
e assim
surgiram
grandes
advogados,
grandes
médicos,
profissionais
de
classe média
negros.Volto
a
insistir,
essas
cotas vão
beneficiar
sobretudo
a classe
média
negra,
porque
é a que
termina
o Ensino
Médio e
passa no
vestibular.
P
-
Algumas
universidades
brasileiras
já
criaram
cotas
para
negros.
Como
funciona?
R
-A UnB,
a
Universidade
Federal
da Bahia
e a
Universidade
do
Estado
do Rio
de
Janeiro.
Apesar
da polêmica
inicial,
já
funciona
há uns
três
anos.
Quando a
gente
tiver um
grande médico
que
coloque
o
diploma
dele na
parede e
ao lado
informe:
"Eu
entrei
pelas
cotas",
vamos
desmoralizar
essa idéia
de que a
cota
diminui
a
qualidade.
Quem
entra
pelas
cotas
vai
estudar
mais.
P
- Alguns
usam o
argumento
de que
as cotas
violam o
direito
constitucional
da
igualdade.
Como o
senhor
responde
a essa
crítica?
R
- Ora,
esses não
aceitam
que em
nome da
igualdade
de
direitos
um pai
pobre
exija
lugar
para
seus
filhos
em uma
escola
de
qualidade.
P
-As
cotas
para os
alunos
das
escolas
públicas
vão
levar os
pobres
para a
universidade?
R
- Tenho
consciência
de que a
minha
defesa
da cota
não vai
mudar o
fato de
que 80%
da
população
não
entra na
universidade.
É
verdade
que 70%
da
população
nem
pensa em
universidade.
É um
equivoco
pensar
que a
cota
para
escola pública
vai
beneficiar
os mais
pobres.Volto
a
insistir:
no
Brasil
os
pobres não
terminam
a quarta
série.
As cotas
vão
beneficiar
uma
classe média
mais
baixa e
vão
beneficiar
a escola
pública.
P
- Então,
mesmo
com 50%
das
vagas
das
universidades
estatais
para os
alunos
das
escolas
públicas,
a
maioria
dos
estudantes
brasileiros
continuará
fora da
universidade?
R
- Para a
população
pobre,
é
necessário
criar
condições
para que
100% dos
alunos
terminem
o Ensino
Médio,
o que
exige a
federalização
da educação
básica.
Apenas
um terço
dos
jovens
brasileiros
termina
o Ensino
Médio.
Desses,
talvez
somente
metade
tem
condições
de
disputar
o
vestibular
das
universidades
federais,
já que,
em sua
maioria,
sai de
escolas
privadas
caras e
qualificadas.
Em quase
100 anos
de
universidade
brasileira,
tem sido
negada,
a milhões
de
jovens
brasileiros,
a
oportunidade
de fazer
o
vestibular.
P
- Mas a
proposta
de cotas
para
alunos
que
fizerem
todo o
segundo
grau nas
escolas
públicas
tem o
objetivo
de mudar
essa
situação?
R
- É
preciso
deixar
claro
que as
cotas
beneficiariam
apenas
uma
pequena
parte
dos
jovens,
aqueles
que
terminaram
o Ensino
Médio,
estudaram
nas
melhores
escolas
públicas
e
puderam
se
preparar
para o
vestibular.
As cotas
não vão
incorporar
30 milhões
de
jovens
brasileiros
que não
conseguem
concluir
o Ensino
Médio.
P
- Críticos
da
proposta
afirmam
que a
garantia
de que
os
alunos
das
escolas
públicas
terão a
metade
das
vagas
nas
universidades
levará
a classe
média a
migrar
das
escolas
privadas
para as
escolas
púbicas,
concorrendo
com os
alunos
da
classe média
baixa e
burlando
a intenção
do
projeto.
R
- Não,
isso
apenas
beneficiará
as
escolas
públicas
e seus
alunos.
Porque
na hora
em que a
classe média
brasileira
colocar
seus
filhos
na
escola pública,
aí
essas
escolas
vão
começar
a
melhorar.
P
- Por
que a
escola pública
vai
melhorar
se a
classe média
colocar
seus
filhos lá?
R
- Porque
a classe
média
tem força
de pressão.
Todo
serviço
público
para as
classes
média e
alta é
melhor.
Veja: as
rodoviárias
são
ruins e
os
aeroportos
são
bons. Os
pais
desses
alunos
de
classe média
falam
com os
professores
em pé
de
igualdade.
Já o
pai
pobre
fala com
professor
e
professora
humildemente.
Esse
envolvimento
da
classe média
e alta
com a
escola pública
é o
caminho
para que
a escola
pública
melhore.
P
- Quais
são as
outras
vantagens
para a
escola pública?
R
- As
cotas
para as
escolas
públicas
têm
duas
vantagens.
Primeiro,
muitos
dos
jovens
dessas
escolas
que hoje
nem
sonham
em
entrar
na
universidade
passarão
a pensar
e a se
preparar
para
isso.
Quando
souberem
que tem
uma cota
para
eles na
universidade,
vão
estudar
mais no
Ensino Médio,
vão ser
mais
estimulados.
E isso
vai
melhorar
a
qualidade
da
escola pública.
P
- Mas
outros
argumentam
que as
cotas vão
piorar a
qualidade
das
universidades
públicas
de hoje.
Tem
algum
fundamento?
R
-
Nenhum.
Não vai
entrar
ninguém
reprovado
no
vestibular.
Só
beneficia
aqueles
que
passam
no
vestibular.
Apenas
em vez
de dar
entrada
somente
no que
passou
até o
vigésimo
lugar, dá
entrada
até o
que
passou
até o
vigésimo
quinto
ou mais.
P
- Há os
que
afirmam
até que
sairão
pessoas
menos
qualificadas
das
universidades.
Como o
senhor
responde
a essa
crítica?
R
- Um dia
desses
uma
jovem me
perguntou
se eu
iria a
um médico
que
entrasse
por cota
na
universidade.Respondi:
quando
você
vai a um
médico,
você não
pergunta
em que
faculdade
e quais
as notas
com que
ele
passou
no
vestibular.
Ninguém
pergunta
isso. Não
há uma
correlação
direta
entre a
classificação
no
vestibular
e a
qualidade
do
profissional.
O
primeiro
lugar no
vestibular
não será
necessariamente
o melhor
aluno ou
o melhor
profissional.
Vou
repetir:
a cota não
beneficia
reprovado.
Beneficia
o que
antigamente
se
chamava
de
excedente.
P
- Qual a
vantagem
da
implantação
do PAS
do ponto
de vista
do aluno
da
escola pública?
R
- Esse
sistema
de seleção
implantado
em 1996
na
Universidade
de Brasília,
com
exames
durante
os três
anos do
Ensino Médio,
em lugar
da prova
única
do
vestibular,
provocou
uma
melhoria
na
qualidade
das
escolas
públicas
e
privadas.
Os
alunos
da
escola pública
passaram
a
vislumbrar
uma
chance
de
entrar
na
universidade,
e os das
escolas
privadas
sentiram
não
apenas
necessidade
de
estudar
mais,
por
causa da
concorrência,
mas de
estudar
durante
todo o
Ensino Médio,
e não
apenas
depois,
no
cursinho
pré-vestibular.